sexta-feira, 5 de junho de 2009

Poesia de cimento


Tenho tantos devaneios que me perco na realidade, ontem andando pelas ruas de Salvador, me esbarrei em pessoas, vi prédios surgir e outros morrer, ouvi barulhos que não soube distinguir. O tempo me roubou a atenção, o diálogo entre diferentes formas tocou-me agudamente, ver o contemporâneo negar o vanguardista, a altura ao comprimento, o singular ao plural. Formas de uma cidade em des/construção, desaba a colonização e emerge a verticalização!

Tentei não pensar em mim, mas pensei na moda. Como esta reagiria a esta realidade capaz de cercear a visão de alguns que momentaneamente vêem tudo como progresso? Salvador perde a sua volumetria e textura, a Barra não tem mais as pedras portuguesas, as casa não usam mais o ladrilho hidráulico com padrões gráficos tão presentes na cultura nordestina. Uma identidade é desconstruída, os otimistas falariam em repaginar a cidade, dar ares cosmopolitas. Questiono, insuflo o pensamento, desconstruo em mim o que dizem ser "cosmopolita", SALVADOR NÃO É DE TODAS AS NAÇÕES! Salvador é do povo, como a praça é do poeta!

Adaptar a cidade para receber a globalização é fazê-la sumir, desaparecer entre arranha-céus, ferver não mais ao som do trio elétrico, mas das paredes de vidro espelhado. É questionar ou esquecer a história de muitos que nela nasceu, morreu ou apenas esteve de passagem. Como uma roupa que trucida o corpo, dilacera as formas, reconstrói a paisagem.

Pode ser estranho falar em corpo ao falar de cidade, a relação não está na forma, e sim, na dinâmica. Assim como a terra que um dia se tornou cidade, o corpo é um suporte para a moda. Os prédios crescem e são demolidos, as roupas vestem; as ruas surgem, a estética muda o corpo; a cidade cala, o corpo fala; o tempo age tanto na cidade como nas pessoas, numa dinâmica des/construtora.

Ao ver a cidade, não vejo mais os resquícios de cultura, vejo como é prolixa a ignorância. Há de ter um dia em que o céu não será mais do condor, nem a praça do poeta!

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