quarta-feira, 29 de abril de 2009

SAIA JUSTA: cota nas passarelas*



"O criador tem que ter liberdade. Ele é quem deve escolher seu casting e ver o que fica melhor para o resultado final de seu trabalho, mas também tem que existir um equilíbrio"
Thaís Araújo
[afirma a atriz quando questionada pelo site da Erika Palomino sobre a polêmica da semana]



* A declaração [infeliz] de Glória Coelho, no post anterior, me fez ter uma ótima idéia: criar um espaço no blog para opiniões [boas ou más] sobre o que estiver acontecendo no "fantásticoMUNDOdeBOB" em que vivemos! Aproveitem as saias justíssimas que trarei!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Até quando precisaremos de cotas?



Há alguns anos, foi assunto dos principais telejornais brasileiros a decisão do governo de instituir a política de cotas raciais no vestibular das universidades públicas federais e estaduais. O projeto de lei foi justificado como uma compensação aos anos de descaso e negligência para com os negros. Engraçado, como um projeto de cotas compensaria os negros dos maus tratos, do preconceito, da apartheid sofrida, da quebra dos laços de origem, do trabalho escravo que construiu esse país?

Estuda-se a possibilidade de se fazer valer outro projeto, não menos polêmico, que instituiria o sistema de cotas sociais para os estudantes de escolas públicas que queiram ingressar no ensino superior público. Estudantes, em grande maioria, que apresentam em seus registros a declaração de pele negra. Filhos de negros que não tiveram a oportunidade de estudo, por se dedicarem cedo ao trabalho braçal, muitos até freqüentaram as escolas, mas o ensino fraco não possibilitou maiores vôos. Então, vamos ser “bonzinhos”, vamos compensá-los, criar meios para que eles possam ingressar nas faculdades, mesmo sabendo que não os preparamos para isso.

E, então, a compensação é hype, entrou na moda! Tanto se falou dela, nada mais esperado que a sua invasão às catwalks. A promotora Déborah Kelly Affonso, do grupo de atuação especial de inclusão do Ministério Público, preside um inquérito para apurar se a menor presença de modelos negras nas passarelas da SPFW seria uma prática racista e discriminatória. Segundo ela, o percentual de negros no evento chega a 3%, dos 344 modelos apenas 8 eram negros. Estuda-se a possibilidade de se instituir uma cota de modelos afrodescendentes para o evento, como uma mantenedora da equidade social.

Não acredito que seja uma maneira de discriminação racial, mas sim, social! Uma prática condizente com o processo histórico depreciativo vivenciado pelos negros. Privados do direito a educação de qualidade, carentes de políticas que ressaltassem a sua cultura e hábitos de origem africana e colocados à margem sem o direito de adquirir a cultura já miscigenada, expostos a todos os tipos de humilhação, sonhos cerceados!

O sonho de adentrar na passarela de um grande evento, ter todas as atenções para si, mesmo com os olhares voltados para os looks. Ali seria a chance de todos observarem o potencial do negro, tão desqualificado e sempre colocado como uma força produtiva. [Vide o que Glória Coelho falou para a Folha de SP: "A cota pode interferir na obra do estilista. Nosso trabalho é arte, algo que tem de dar emoção para o nosso grupo, para as pessoas que se identificam com a gente. Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, têm negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?"]

A sociedade não valoriza o negro e a moda não seria diferente, ela é um reflexo de tudo que acontece na humanidade. Por anos, modelos brancos dominaram os backstages, as capas de revistas e editoriais, supremacia quebrada por tops como Naomi e Alek, vanguardistas na valorização e incentivo para negros na moda. Muito antes de Michelle Obama ser o novo ícone fashion, ganhar a capa da “Vogue” América e ser uma mecenas de novos estilistas em ascensão.


O casal Obama trouxe o negro à moda. O preto tão adorado pelos fashionistas pode não estar em alta, mas o negro... Não é a toa que a “Vogue” Itália publicou, em 2008, a “Black Issue”, toda dedicada a modelos negras. A eminência da campanha de Barack Obama para presidente dos EUA, um dos países com uma história manchada por forte segregação social e racial, atraiu os olhares para o novo negro, que esbanja elegância, simpatia e inteligência. A publicação teve a capa e editoriais estampados por Iman, Naomi Campbell, Tyra Banks, Ubah Hassan, Jourdan Dunn, Liya Kebede, Alek Wek, Chanel Iman, em fotos de Steven Meisel. Além da entrevista com o cineasta Spike Lee e o perfil de Michelle Obama. Recorde de vendas, a revista alavancou a discussão sobre racismo e a presença de negros na moda.

Depois disso, muitos olhos brilharam, corações palpitaram, desejos surgiram. A negra se sente a vontade para nutrir a vontade de surgir imponente nas passarelas. Seja por meio das cotas ou não. O que um dia foi a realidade nacional cantada por Elza Soares “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, começa a mudar. Não que a o sistema de reparação social seja a melhor solução, mas sim a valorização do negro. Para que outras Emanuelas, Ana Belas, Carmelitas, Rojanes, Samiras e Gracies surjam e conquistem as catwalks internacionais, e quem sabe um dia, sejam homenageadas com uma “Vogue” só delas! Ah, e não como uma compensação, e sim, um reconhecimento!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Liberdade de pensamento!


Você sentaria numa cadeira com esta?

O estúdio de design turco Autoban criou uma cadeira que lembra uma gaiola para pássaros. Intitulada "Ninho", o projeto apresenta o conforto e aconchego dos ninhos com a forma das gaiolas coloniais.

Sem dúvida um objeto-desejo!

Um conto imaginativo da fragilidade humana moderna!


A paixão pelo têxtil e pelas histórias levou a designer dinamarquesa Maria Kirk Mikkelsen a pesquisar sobre o ato de tricotar, o que colaborou na criação de "Pink and powder, puf and pillow". Um imenso travesseiro de tricô rosa, que ela define como "um conto imaginativo da fragilidade humana moderna", em referência a clara relação entre o tricô e a afetividade humana, como também as sensações criadas quando se tricota. Lembrei muito da figura das senhoras tricotando, contando histórias, dando boas gargalhadas. Very nice!

Por onde anda a Amélia?

Muitos homens suspiram ternamente de saudade da Amélia cantada por Mario Lago! A mulher desprendida de vaidade, de luxos, de maiores vontades; submissa e devota ao seu marido. Mas o que fez essa tão desejada esposa partir? A pílula anticoncepcional! Ela não apenas livrou a humanidade de um estrondoso crescimento populacional, como também, libertou a mulher de seus afazeres domésticos, deu asas a novo mundo. Livre, seguro e cheio de sonhos!

Para viver nessa nova realidade a mulher se tornou uma grande heroína, tendo que pensar e agir, ter feminilidade e força, numa relação de amor e ódio com os homens. Os signos do vestir feminino comprovam a necessidade de se autoafirmar, vencer o simulacro criado em torno da Amélia e mostrar ao homem a sua inteligência e sensualidade. Essa é a imagem da mulher desfilada nas passarelas mundo a fora, com a imagem feminina forte e valorizando a cabeça, ombros, punhos e áreas erógenas.

Enganam-se quem pensa que é uma simples retomada dos anos 80 ou de qualquer outro período. A mulher do inverno 2009, que se esforça para sair das passarelas há pelo menos duas estações, é sensual sem ser óbvia e foge do lugar comum ao investir em peças masculinizadas, que tem força nos detalhes.

Cabelos volumosos, cheios de bossa, com grandes adornos, encaracolados ou laquê aparecem em nas passarelas brasileiras e internacionais. A cabeça feminina se torna um foco de atenção, afirmando a mulher que pensa e toma decisões, não só aceita as escolhas dos maridos. [Louis Vuitton, Lanvin, Catherine Malandrino, Prada]

Os ombros são marcados por mangas volumosas e geométricas, numa verdadeira arquitetura do vestir, trazendo à silhueta o poder masculino, a austeridade tão usada nos anos 80 com as imensas ombreiras dos ternos femininos. Estes, também, foram revisitados e ganharam o status de hype da estação quando levemente ajustados ao corpo e com decotes profundos, ou simplesmente sobreposto a camisetas básicas de renda com calças justas, sendo um curinga para qualquer it produção. [Balmain, Stella McCartney, Marc Jacobs, Nina Ricci, Gucci]

Pulseiras para todos os lados! Ícone fashion, Andréa Dellal tem o hábito de adornar o braço com várias pulseiras-crioulas, assim como a anti-amélia, que enfeita o pulso para afirmar a força, como uma armadura. Pulsos reluzentes e emissores de um tilintar capaz de seduzir os homens a léguas distância. Ah, para as mais glamorosas, um bom par de luvas faz surgir uma mulher misteriosa e sedutora. Signos de uma mulher que não se preocupa com as prendas do lar, não precisa lavar louça, passar as roupas, afinal, não dá pra usar várias pulseiras e dar brilho nas panelas né! [Michael Kors, Lanvin, Iódice, Diane von Furstenberg, D&G]

As pernas são alongadas por botas altíssimas, com um perfume fetichista e que levam o olhar para as coxas e zonas erógenas. Botas de cano longo, que abraçam as pernas e delineiam as sinuosidades das mulheres, ora esquecidas por uma silhueta esguia em Y. Equilibram o poder e exalam feminilidade. Depois de tantos vestidos que ora questionavam a cintura, ora marcavam-na, as calças ganham força dentro do figurino da mulher maravilha, sejam saruel, dhoti, carrot pants, skinnys, mas sempre dando o ar da graça em looks rock star ou despojados. [Rodarte, Alexandre Herchcovitch, Hussein Chalayan, Balmain, Uma, Ellus, YSL]

Enfim, onde foi parar a Amélia? Não se sabe. Enquanto ela descansa em berço esplêndido com seus adjetivos, uma nova mulher surge a cada estação, com menos qualidades ou não, mas com algo que certamente a Amélia desconhecia, ESTILO! A “mulher de verdade” é forte, feminina e confiante, e não precisa dizer sim a tudo ou usar vestidos de bolinha para ser dona de casa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Observatório humano

Dando uma fuçada no Youtube, descobri o trabalho do grafiteiro italiano Blu num vídeo bem interessante que mostra o processo de criação em uma parede de Berlim. Sempre com uma crítica bem-humorada ao ser humano, ele pega temas banais, como a escravização do homem pelo tempo ou a tentativa de suicídio por meio da ingestão de tachinhas e transforma em obras de arte acessíveis a todos.

Com um trabalho dedicado e autoral, Blu foi um dos cinco grafiteiros convidados para pintar as paredes do Tate Modern, junto com outros três brasileiros. É de ficar perplexo ao lembrar que uma garota foi presa ao grafitar em São Paulo, no mesmo período em que as pinturas dele e de outros brasileiros ganhavam o status de obra de arte ao serem expostas no Tate, durante uma grande e intensa programação que levou a arte de rua para o museu. Uma arte ligada ao ambiente urbano das grandes cidades, que dialoga com o dia-a-dia de milhares de pessoas de Buenos Aires, Berlim, Zaragoza, que poderia estar numa parede do Rio de Janeiro ou Salvador. São imagens recorrentes, monstros da mitologia grega, o homem e seus questionamentos existenciais, barbáries, todos com um traço próximo ao desenho animado e em proporções gigantescas.

Seu projeto mais recente, o MUTO é um mix de grafite e animação em stop motion, criada a partir de imagens seqüenciadas em paredes de Buenos Aires. Personagens surrealistas são pintados, fotografados e repintados, num trabalho minucioso embalado por uma deliciosa trilha sonora.





É válido conferir e ficar de olho!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O futuro da moda*

A moda tem uma relação dialética com o passado, a cada estação ela nega o que foi usado e propõe tudo novo. Um ciclo de inovação, uma mudança de pensamento, uma evolução dos desejos da sociedade, porém, volta e meia, é no passado que ela se propõe uma reinvenção e traz referências para o futuro.

Mas qual seria o futuro da moda? Como falar em futuro sem analisar o presente? E é no presente que ela acontece! Nos ateliês, indústrias, passarelas, nas ruas; ambientes de convivência, meios sociais que a caracterizam como um fenômeno da sociedade, um reflexo do seu tempo e um diálogo com o contemporâneo.

Sob o ponto de vista da atual conjuntura social, o futuro da moda é repensar o passado para propor um presente mais lúcido, não mais caducar em velhas fórmulas. Repensar o luxo e aproveitar o lixo, ter consciência sócio-ambiental, abandonar o pensamento arcaico de exclusividade, refletir o papel das publicações de moda. E, quem sabe, trazer um novo futurismo, não mais metálico e espacial, mas cor-de-rosa e democrático.


*texto premiado pela SPFW para a Promoção Cultural SPFW - Escola São Paulo.