sábado, 7 de novembro de 2009

The Sign


Design processo - autoprojetar

Nestas últimas semanas estive bastante reflexivo sobre as escolhas feitas durante nosso período de vida; surgiram um turbilhão de dúvidas e incertezas, projetos foram findados dando início a outros, fatos que deram o tom roxo aos dias, uma agitação introspectiva. No meio disso (não sei se chamo de processo de amadurecimento ou simplesmente não denomino), fui convidado por uma amiga para assistir uma palestra sobre exportação promovida pela PROMOBAHIA.

Como o tema era exportação, achei um pouco chato e não queria sair numa sexta a noite para ouvir alguém falar e não prestar atenção, estando com os pensamentos em outros planos. Sem ter muita escolha, encarei como um compromisso de trabalho e fui assistir a palestra de Dália Gallico sem nem imaginar o que ela ira falar ou quem era ela.

Para minha surpresa, ela é a presidente da Associazione Disegno Industriale - ADI, localizada na região responsável pelo design italiano, a Lombardia, composta pelas cidades de Milano, Bréscia e Mântua. Arquiteta e designer, Dalia é docente de universidades na Itália e coordenadora do Observatório de Design, onde são estudadas as tendências de design, tecnologia e comunicação.

Contaminar-se!

Em italiano bem marcado e ensaiando poucas palavras em português, Dália começou sua palestra falando dos significados da palavra DESIGN, escrito por ela na apresentação como THE SIGN (leia-se design)! Para ela, falar sobre design é entra pela semiótica e observar os signos vistos no cotidiano, deixar-se contaminar por eles, construir um arquivo de referências.

Isso muito me inquieta, o ato de contaminar, entendido como contagiar, quando se é tomado por emoções, inspirar-se nos pequenos acontecimentos, contato com pessoas que passariam despercebidas e lugares antes vistos como triviais; e disto, retirar signos para projetar objetos a partir deles. Faz-se latente em mim a vontade de ir mais fundo nos olhares e assuntos, reler o que já li, tentar enxergar com outras perspectivas o que vejo ocasionamente, permitir uma troca com todo o entorno.

Quando ela afirma que devemos desenvolver objetos como computadores pensando em outros códigos como as roupas, os carros, as jóias, os brinquedos, está afirmando a necessidade do design em olhar para o diferente e tentar propor algo novo, deixar se contagiar por outras possibilidades. Deste contágio que surgem as novas propostas de design, quando se entende o que as pessoas estão olhando diariamente e vivendo, suas emoções e valores. Observamos uma época em que as pessoas não tem tempo, buscam a praticidade, sentem medo por faltar segurança, vivem sozinhas sem relacionamentos sólidos, desenvolvem avatar numa vida virtual paralela à realidade e tentam minorar as culpas.

Design + Comunicação

Hábitos que geram novas propostas para se viver, desencadeadores de novos modos de moradia, de consumo, ocasionadores de novas tendências e modas. Vemos isto no aumento das campanhas e no espaço na mídia dedicado às ações sócio-ambientais; no consumo de alimentos orgânicos e de fácil preparo ou pré-cozidos; na utilização das ecobags, no desenvolvimento de produtos com processos socialmente corretos e na pesquisa de novos materiais menos poluidores; e na construção de moradias com grandes espaços de convivência, com cozinhas amplas e varandas gourmet, para que as pessoas passem mais tempo em casa e recebam seus amigos.

Oportunidade identificada pelas empresas, como a Brastemp que realiza o BGourmet, evento que reúne áreas complementares como Moda, Design, Culinária e Arquitetura, numa ação de comunicação, ou como os europeus estão chamando, o COMKT. As empresas passaram a questionar-se sobre qual mundo queriam alcançar, pensando como atingir esse novo nicho de mercado. A Brastemp mostra como se projeta pensando nos novos hábitos, desenvolvendo os eletrodomésticos dentro de parâmetros sócioambientais, com design moderno(projeto e não estética, podendo esta ser retrô), convidando estilistas para desenvolver estampas, arquitetos para pensar onde serão inseridos os produtos na nova proposta de vida do público e chefs de cozinha demonstrando como os consumidores agem no dia-a-dia.

Desta forma vemos como design deixa de pensar apenas no produto e pensa no processo, desde a concepção, passando pelo planejamento e execução, à comunicação e venda. Confirmando que o produto não existe se não for bem comunicado e propiciar ao consumidor uma experiência, que se inicia no ponto de venda e termina nos lares. Essas vivências na loja, como vídeos, editoriais, exposições, são ações para sensibilizar o cliente para o valor agregado da marca, os signos adquiridos e os valores compartilhados quando se consome.

Incentivo

Não sei se esse período introspectivo passará logo ou se permanecerá por mais um tempo, mas tenho a certeza que estou crescendo intelectualmente com ele, parando um pouco mais para pensar a vida e aprender com ela. E com as outras pessoas também, como a própria Dalia que quase não iria conhecer, mas que agora se tornou um exemplo a ser almejado. Como ela própria diz, temos que pesquisar, não mais nas ruas, mas nos fóruns e sites, investigar a opinião das pessoas e pensar nos novos produtos juntamente com quem usa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Por onde anda Dona Esperança?

Depois do Oi Fashion Rocks, com a presença da Calvin Klein, do Marc e da Versace com todo o preenchimento labial de Donatella, tivemos no dia 28.10 o Prêmio Moda Brasil. Uma ótima iniciativa de José Maurício Machiline e do Shopping Iguatemi, que homenageou a eterna editora de moda com uma outrora brilhante, Regina Guerreiro! Esta, que não dispensa uma montação nunca, aproveitou o ensejo para usar um look preto da Glória Coelho. Uma noite de muita comemoração e encontros memoráveis, reunião de pessoas bacanas que fazem a nossa moda cada vez mais fortalecida.


Mas como sempre, os brasileiros perdem a oportunidade de afirmar sua identidade, reforçar o que nós fazemos de melhor, como disse Glória Kalil "é brasileira sem ser folclórica, é sofisticada e tem uma graça". Entre estilistas, modelos, jornalistas e stylists foi um desfile de looks internacionais com a presença de Miu Miu, Louboutin, Yohji Yamamoto, Dolce & Gabbana, Valentino, Vuitton, Lanvin, Missoni, Jill Sander, Stella McCartney, Chloé e até TOPSHOP! Com o seguinte argumento, "ah o hi-lo é algo que deve ser seguido", ok ok ok, super concordo e admiro quem pensa assim, já mostra personalidade, mas alguém usou C&A, RENNER, RIACHUELO?

Gente, se é um prêmio para homenagear a moda brasileira, nada mais pertinente do que se prestigiar as marcas nacionais, mostrar a criação de jovens estilistas locais e até usar os "nossos" magazines, que hoje tem um papel importante na difusão do conteúdo de moda! Não é a toa que vemos o Pense Moda se associar a Renner, exemplo do posicionamento da rede de lojas. Não adianta afirmar que temos uma moda maravilhosa e não usá-la nessas ocasiões solenes! Pergunto: a Donatella usou alguma marca brasileira no OiFR? O Marc foi visto com alguma peça "made in Brasil" quando esteve aqui para abrir a sua loja? NÃO! Então por que temos que homenageá-los num prêmio nacional de moda? Homenagear sim, quando escolhemos uma marca para usar carregamos todo o seu DNA, seus valores e seus símbolos, fazemos uma ODE ao seu criador!



Então Brasil, até quando o que vem de fora terá mais valorizado? Se pensamos em discutir uma identidade nacional, esse é o primeiro ponto da pauta a ser refletido. Vamos parar com o discurso a favor da moda feita por brasileiros e tomarmos uma posição pró-ativa, UTILIZANDO-A! Mirem-se na Glória que utilizou Huis Clos e Corello, duas marcas nacionais que almejam a projeção mundial!


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano vive uma louca chamada Esperança. E ela pensa que quando todas as sirenas, todas as buzinas, todos os reco-recos tocarem, atira-se e: — ó delicioso vôo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Preciosidades do vestir masculino

As pessoas sempre justificam a falta de frescor no guarda-roupa masculino pelo fato do homem ser mais clássico e menos ousado. Um discurso chato, sem muito a dizer e a legitimar. Se observarmos os homens modernos veremos as diferenças entre ter estilo e, simplesmente, se vestir. Veremos que as sutilezas falam mais que a extravagância e comunicam a essência de quem veste.


Selecionei algumas imagens do The Sartorialist para observarmos como se vestir com criatividade e sair da mesmice que impera!

Cores forte, assessórios bacanas e modelagens desconstruídas:


Silhueta ajustada e comprimentos menores [navy contemporâneo]:


ousaDIA: paletó + short + sapato [coordenação de cores interessante gravata + sapato + paletó]


Criatividade: proporção e estampas coordenadas:


Vanguardistas: exercício de proporção de formas, cores e estampas:

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Uma ode ao TWITTER!



Eis que, depois de um mês, volto a escrever... Tanta coisa acontece em um dia, quiçá trinta dias. Apesar do excesso de fatos e acontecimentos, nenhum me estimulou a escrever, a expor minha sincera e humilde opinião. Neste período ausente, do blog e de mim, pensei muito sobre o poder da internet e da blogsfera, enquanto um veículo opinativo e espaço aberto para a manifestação dos mais loucos anseios. Me toca o fato de cada dia mais surgirem blogs informativos, quando as pessoas correm por novas notícias, num furor de jornalismo online.

Não tenho mais paciência para ler se a tacha está em alta, se o make será flúor, se o nude vai desnudar as cores e assumir o posto de queridinho da estação. Um bem sonoro NO NO NO da Amy para isso! Não me falem das tendências pois vejo como uma ausência do pensamento! Vamos falar do tempo: do homem que foi a lua, da crise do neoliberalismo, do Twitter. Desta maneira falaremos do e dialogaremos com o tempo. Veremos que para o flúor chegar ao make, foi necessário pensar na revolução tecnológica ocasionada com a ida do homem a lua e que, 40 anos depois, as pessoas ainda duvidam do fato, mas agradecem aos aparatos desenvolvidos que facilitaram o cotidiano. Uma ODE ao tecno, ao futurismo!

O tempo também nos mostra a necessidade de pensar no neoliberalismo dos anos 70/80 e a crise ocorrida em 2009 por conta da liberdade especulativa do mercado. Antes o estado queria uma economia livre, hoje ele precisa segurar as rédeas da mesma. O desemprego cresce, o poder de compra diminui, o dólar oscila mais que bola de ping-pong numa partida eletrizante. As mulheres no poder precisam ser cada vez mais fortes e austeras, porém sem perder a feminilidade. Então os Balmain, com ombros marcadérrimos, os Prada e as transparências, os minimalistas de Calvin Klein, os nudes de meio mundo de gente!

As pessoas acompanham tudo pela internet, as comunidades virtuais ganham força. Vem à memória fatos como o aniversário de bandas de rock surgidas no fim da "década perdida", com suas tachas e metais. A portabilidade desta música, antes feita por meio do walkman, símbolo da liberdade do homem, perdeu mercado para o cd player, depois para os MP1000. Mas o homem pós moderno não quer ser simbolizado pela contiguidade espacial, mas pela liberdade de pensamento. Se antes era a internet que engatinhava nesta seara, agora é o Twitter que dispensa apresentações e se consolida como o grande comunicador da década e traz consigo uma onda Geek, onde os neonerds fazem a festa com direito a muito flúor, dourado e prateado.

Por isso amo a Moda, por sua capacidade de dialogar com o seu tempo, de comunicar o espírito de uma época!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

FAZ-SE POESIA!


Quem é o poeta? Uma pessoa capaz de sentir o espírito de um tempo, enxergar os reflexos de um espelho turvo, ouvir as ondas quebrar nos veleiros. Terreno fértil, árvore frutífera da imaginação e sensibilidade. Poeta sujeito, poesia predicado! Com suas imagens imaginárias o poeta constrói frases, versos, páginas; compõe linhas, estampa o papel com sua letra e assinatura. O que seria do mundo sem o poeta? A vida não teria poesia? Não sei falar, não quero me aproximar desta discussão prosaica, nem tão pouco vislumbrar essa possibilidade apavorante. Quero apenas saber de poesia e do poeta que existe em cada criador de moda!

Não! O criador de moda não é um poeta, um operário do consumo, braço direito da mudança no modo de produção e de consumo para uma seara efêmera, de rápida obsolescência e diversificação de produtos. Ele deve atender a necessidade básica do vestir, de proteger, esconder os pudores. “Parem as máquinas! Fechem as fábricas! Poetas invadem o ambiente industrial!” Poderia ser a manchete dos principais jornais do mundo. Sim, os poetas chegaram aos galpões, nem menos apaixonados, tão pouco enlouquecidos. Suas faculdades mentais são intactas, sua eloqüência e intelectualidade cada vez mais aguçada.

Se poesia é a “arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados”, santo Aurélio. Logo, todo criador de moda é um poeta em essência! Criamos imagens sedutoras, incitamos a emoção, cutucamos as pessoas nos seus mais profundos desejos inconscientes. Falamos por meio de signos, construímos símbolos, damos significados às coisas, também para as vidas alheias. Se o poeta usa as palavras na praça para chegar às pessoas; o escritor usa o papel; o grafiteiro usa tinta nas paredes e muros como suporte para inscrições poético-políticas; o criador de moda utiliza a beleza para criar imagens de moda.

As imagens de moda são poesias! São sentimentos, sensibilidade e leitura de um macroambiente identificado por poucos, os poetas-criadores. Não é só fotografar uma roupa, uma modelo magra, uma divagação a cerca da beleza com pintadas surrealistas. É a construção de um diálogo, de um discurso oferecido às pessoas sobre a identidade de uma marca, seus valores e predileções para aquela estação. Sugestão de uma atmosfera, aproximação de um momento com a realidade de quem vê, transpõe e seduz o observador, propõe que ele leia, negue ou exalte o que vê!


terça-feira, 16 de junho de 2009

SAIA JUSTA: Bethy Lagardère uma musa eterna!



"Nossa conduta, publicamente falando, era bastante discreta. Chanel, por exemplo, não permitia que suas modelos usassem nada que não fosse Chanel. Mas o mundo muda e rápido, as exigências de ontem não são as mesmas de hoje. Pessoalmente sinto que seja assim. Há uma banalização do álcool e das drogas que nunca fizeram parte do meu mundo. O critério de seleção era baseado numa beleza real.
O escândalo não fazia parte da nossa publicidade
!"


Bethy Lagardère

[socialite franco-brasileira responde à pergunta de Lilian Pacce sobre as "it girls”, como Alice Dellal, Agyness Deyn, Kate Moss, e suas imagens provocativas e atitudes rebeldes]

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Surrealismo!

A fotografia é uma maneira de congelar o presente, trazer um instante para a posteridade, tornar quase que eterno uma lembrança esquecida pelo cérebro. Nos primórdios desta arte, era irreal imaginar uma foto que guardasse o movimento, possibilidade já existente hoje. O fotógrafo Atton Conrad produz imagens surrealistas com a ajuda da luz, cria graffitis com formas orgânicas inserindo movimento e leveza à fotos, as luzes circulam em volta do corpo como texturas em tecidos fluídos.




Testino love Gisele : Gisele love Testino

A relação de amor entre Gisele e Mário Testino é antiga e ainda rende ótimos frutos, como as fotos para a Vanity Fair Magazine. Ele consegue fotografar uma Gisele com ares de diva de Hollywood, aproveitando sua expressividade [ainda tímida] e produzindo imagens de moda maravilhosas. Merci!







segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dicas de como usar uma camiseta!

Fui a um brechó super legal lá no Rio Vermelho [Desculpa, mas não me lembro o nome!] e vi várias peças ótimas pra produções ou montações diárias. Imaginem: coletes, batas leves, tricôs, calças coloridas, cinturas altas, enfim, peças com histórias próprias para construir outras histórias. Fiquei impressionado com as camisetas de bandas bem oitentinha e resolvi escrever um post dando dicas de como usar peças tão curingas em looks urbanos!

Para ilustrar, peguei fotos do The Sartorialist e do Face Hunter!

1 - Transformar a camiseta ampla em um vestido leve e solto é ótimo! Para valorizar o look, invista em sapatos poderosos, em cores contrastantes à camiseta e abuse dos acessórios como maxi-colares.


2 - A camiseta vai à praia! Se você recebeu um convite de última hora [tipo do paquera] e quer arrasar na praia sem se exibir muito a bordo de seu biquíni, aposte na camiseta caída no ombro! Escolha um biquíni que contraste com a cor da camiseta, bolsa de plástico colorida, óculos poderosos e rasteirinhas a tira colo!


3 - Cintura marcada. Se você não dispensa ter uma silhueta feminina e romântica, um ótimo acessório é o cinto, ele dará um efeito de cintura marcada. Você pode complementar o look com meias pretas ou coloridas e sapatos pesados, seja ankle boot ou sandálias geométricas.


4 - Boyfriend now! Pegar emprestado as peças do guarda-roupa do namorado é uma das fortes referências da estação, então não se faça rogada e pegue aquela camiseta dele que você adora e coordene com um jeans larguinho, colorido, e com sapatos [esses da foto são ótimos!]. Pra dar uma leveza, escolha acessórios mais femininos e delicados, se pensar num lenço dê preferência aos de tecidos leves ideais ao nosso clima incerto; invista em flores e laços para os cabelos, eles dão um toque menininha ao look.


5 - Vestida para matar! Adorei a idéia de usar uma camiseta como top para um look tipo primeiro encontro, que a mulher precisa estar fascinante e feminina. A dupla camiseta com gola canoa + cintura alta é ideal, uma opção super fácil de encontrar. Compra uma camiseta em loja de departamento, passa na costureira pra ela colocar umas tachas [tendência] e cortar o decote. É só escolher os acessórios certos, pulseiras de metal e sapatos pesados [se tiver tachas melhor ainda], e você estará pronta para deixar o gato louco!

E não esqueça, em tempos de crise criatividade é essencial! Tire a sua do armário e comece a usar!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Poesia de cimento


Tenho tantos devaneios que me perco na realidade, ontem andando pelas ruas de Salvador, me esbarrei em pessoas, vi prédios surgir e outros morrer, ouvi barulhos que não soube distinguir. O tempo me roubou a atenção, o diálogo entre diferentes formas tocou-me agudamente, ver o contemporâneo negar o vanguardista, a altura ao comprimento, o singular ao plural. Formas de uma cidade em des/construção, desaba a colonização e emerge a verticalização!

Tentei não pensar em mim, mas pensei na moda. Como esta reagiria a esta realidade capaz de cercear a visão de alguns que momentaneamente vêem tudo como progresso? Salvador perde a sua volumetria e textura, a Barra não tem mais as pedras portuguesas, as casa não usam mais o ladrilho hidráulico com padrões gráficos tão presentes na cultura nordestina. Uma identidade é desconstruída, os otimistas falariam em repaginar a cidade, dar ares cosmopolitas. Questiono, insuflo o pensamento, desconstruo em mim o que dizem ser "cosmopolita", SALVADOR NÃO É DE TODAS AS NAÇÕES! Salvador é do povo, como a praça é do poeta!

Adaptar a cidade para receber a globalização é fazê-la sumir, desaparecer entre arranha-céus, ferver não mais ao som do trio elétrico, mas das paredes de vidro espelhado. É questionar ou esquecer a história de muitos que nela nasceu, morreu ou apenas esteve de passagem. Como uma roupa que trucida o corpo, dilacera as formas, reconstrói a paisagem.

Pode ser estranho falar em corpo ao falar de cidade, a relação não está na forma, e sim, na dinâmica. Assim como a terra que um dia se tornou cidade, o corpo é um suporte para a moda. Os prédios crescem e são demolidos, as roupas vestem; as ruas surgem, a estética muda o corpo; a cidade cala, o corpo fala; o tempo age tanto na cidade como nas pessoas, numa dinâmica des/construtora.

Ao ver a cidade, não vejo mais os resquícios de cultura, vejo como é prolixa a ignorância. Há de ter um dia em que o céu não será mais do condor, nem a praça do poeta!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Agy Deyn para UNIQLO

As campanhas da UNIQLO me remetem a uma cultura oriental em processo de abertura e globalização, quando há uma sinergia entre símbolos ocidentais e os mais tradicionais signos orientais. Sempre me encantou a maneira como eles conseguem utilizar as referências da cultura de rua japonesa, um mar imaginativo para qualquer fashion designer, em filmetes como ação promocional, trabalhando a imagem e fortalecendo-a como uma marca de street wear, não de basic wear, proposta inicial.



Em sua última campanha para a linha sports casual, com o styling assinado por Nicola Formichetti, que dispensa apresentação, e estrelada por Agyness Deyn, a marca apresenta uma atmosfera nova. O cenário é uma Nova York contrastante, prédios com arquitetura greco-romana em diálogo com arranha-céus espelhados; dois modelos ocidentais, loiros, correndo pela cidade num efeito slow motion, como num balé de rua; tudo em volta é predominantemente cinza, em contraponto, as peças desenhadas por Jil Sander são rosa pink, verde limão, azul bic e laranja. Um conceito ousado, mas pertinente, uma vez que a UNIQLO pretende expandir seu mercado ocidental e precisa fortalecer cada vez mais a sua marca, como no próprio vídeo mostra: SPORT FOR EVERYDAY!

A campanha mostra o lado jovem e vibrante do dia-a-dia nas grandes cidades, com uma mensagem subliminar: logo na primeira cena aparece uma placa de sinalização STOP, o que nos remete à filosofia oriental de qualidade de vida! Uma ótima sacada e uma maneira de mostrar os valores da marca, o que super casou com a realidade de mercado atual, quando a crise inspira uma mudança nos hábitos de compra, e num viés mais profundo, na maneira de pensar e agir das pessoas!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma paisagem emerge!


Zaha Hadid é famosa por sua criação através das ferramentas digitais que seduziu Karl Lagerfeld com a arquitetura do contêiner da Chanel e deixou os brasileiros atônitos com a sandália desenvolvida para a Melissa. Encantada pela fluidez, ela foi convidada para desenvolver uma linha da calçados para a Lacoste inspirada no símbolo da marca: o jacaré.


A partir da textura do animal, a arquiteta iraniana desenvolveu gridis com a repetição de padrões, o que propiciou uma maior maleabilidade ao material utilizado na confecção de sapatilhas e botas de cano alto e baixo que enlaçam as pernas dando um efeito de pés alados [pertinente ao conceito da campanha de comunicação da marca], criando um design com movimento e observando as formas do corpo humano e suas transformações. "Quando envolto em torno da forma de um pé, o material expande e contrai para negociar e adaptar ergonomicamente ao corpo. Assim, uma paisagem emerge", define Zaha.


Previsto para chegar às lojas da Lacoste em setembro, os calcados terão uma tiragem de 850 pares! Quer ter logo um? Então corre, porque em julho chega à Collete, em Paris, na Dover Street Market, em Londres, e na Corso Como, em Milão, uma pequena quantidade para matar a curiosidade e despertar o desejo dos fashionistas de plantão!

Louco por animação!

Sou apaixonado por animação e encontrei um vídeo de marketing viral produzido por Jenna + Sara, designeres que se intitulam "EQUIPE CRIATIVA", para a V Water. Muito criativo e encantador, para deixar a imaginação borbulhando como a água!




Sara Leal, brasileira, e Jennifer Chen, chinesa, formam uma equipe multitalentosa com um ótimo portfólio e cartela de clientes, como AUDI, DOMINO'S PIZZA, BMW, entre outros.

Passeio cultural pela internet: passa no site delas! ok?!

"Isso prova como reciclagem pode ser arte"

Queridos amigos leitores,

começo esse post com um pedido encarecido de compreensão, estive ausente por conta dos compromissos diários e priorizei-os com dor no coração por não mais poder escrever semanalmente. Hoje estou feliz e radiante por falar a vocês de minhas epifanias comportamentais, empolgadíssimo pra alcançar a meta de postar diariamente!

Estou num momento de aprendizado, projeto do SENAI/IBMODA, consultorias, coleções, etc etc etc, num processo de auto-conhecimento e construção de um repertório cultural [redescobri minha paixão pela literatura nacional e frequento semanalmente museus e exposições].

Acompanhando a internet descobri a City of Philadelphia Mural Arts Program, um programa de arte-educação na cidade de Philadelphia, EUA. Muitos não sabem, mas 22 de abril é considerado o Dia da Terra, comemorado em alguns países com atos de cidadania que intuem para uma melhor preservação e sustentabilidade do meio ambiente. O Mural Arts Program inovou, em 2009, ao apresentar 10 caminhões de reciclagem decorados por jovens do programa.

Durante as aulas, os alunos criaram estampas com a ajuda de arte-educadores, estas foram digitalizadas e aplicadas como adesivos nos caminhões, para assim, despertar a atenção da sociedade e enfatizar a importância da reciclagem como uma maneira de ajudar o meio ambiente e economizar a verba pública gasta com os aterros. Os caminhões são um exemplo de arte urbana, feito para ser apreciado pela população enquanto está na praça, num café, como também, para dialogar com a cidade e seu cotidiano, levando uma mensagem de sustentabilidade e que é possível mudar o mundo sim!

Uma ótima iniciativa ecológica, cultural e artística!

Fica o apelo: Brasil mostra a sua cara!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Longa vida a moda brasileira!



Fico muito feliz ao ler as notícias sobre a saída do Amir Slama e a entrada do Herchcovitch na direção criativa da Rosa Chá, vejo uma nova fase da moda brasileira, madura e decidida, capaz de se inserir no círculo global de empresas que trocam de estilista e não tem a sua imagem abalada, nem suas vendas diminuídas.

Sei que é estranho quando um ciclo termina, nós não somos preparados para o fim, o ser humano é empreendedor por natureza, afinal, vencer milhares de espermatozóides para que um óvulo seja fecundado é uma corrida empreendedora [uma oportunidade, uma iniciativa, a aceitação de um risco], quiçá suicida. Pensamos em um modo de vida, num projeto diário de realizações, uma construção de pilares sólidos de sonhos e vontade de ir além, mas nunca prevemos um final.

O término do ciclo do Amir como estilista da Rosa Chá tem um aspecto distinto, uma empresa brasileira que desfila em Nova Iorque, referencial de moda praia internacional, exporta pra vários países, e, agora, consegue alinhar criação com a produção e distribuição, uma ótima fase empresarial. Slama foi magnífico, soube a hora certa de sair do picadeiro e passar a cartola para um substituto a sua altura, sem muita especulação pra saber quem o substituiria, numa sexta-feira quando os ânimos estão voltados para o descanso do fim de semana e não para furos reportagem, e de uma forma elegante, com os envolvidos falando abertamente e num equilíbrio de declarações.

Isso me fez pensar como a moda brasileira está cada vez mais profissional, como dizia a tão celebrada prostituta Bebel, mais PROFISSA! Falo nela para criticar uma fase já vivida, onde tínhamos apenas Clodovil [imagino o trabalho das divindades celestiais em controlá-lo] e Dener [imaginem o encontro dos dois lá! Os querubins ganharam roupitchas novas, numa continuação da eterna disputa pela a agulha de ouro], dois grandes costureiros, sábios na arte do marketing pessoal, com festas exuberantes, farpas atiradas ao vento e muita ostentação. Sem dúvida, a moda brasileira deve agradecer a eles, Dener ganhou da revista francesa Paris Match o título "O homem mais esnobe da América do Sul" e levou o que se produzia em terras tupiniquins para o velho mundo. Eles sabiam como atrair a mídia e as grandes mulheres da sociedade para perto de si.

Nesta disputa entre os dois, a grande vitoriosa é a moda brasileira, que cresce, ganha a atenção do mundo e faz surgir outros estilistas. E nesse percurso, ganha experiência e amadurecimento o bastante para criar marcas e fortalecê-las, como a Rosa Chá e o Herchcovicht, o que propiciou um mercado ávido para desenvolver essas empresas mundialmente, mostrar o que o brasileiro sabe fazer com maestria: criar, inovar, como dizia minha avó: "tirar leite de pedra" como ninguém sabe. É maravilhoso saber que um novo perfume exala no ar, o vento sopra em direção a novas perspectivas, e, apesar das "marolinhas", a moda brasileira segue firme e forte.

Boa sorte Amir! Sei que novos projetos virão, sinto uma brisa fresca, um som bossa nova que se aproxima e traz consigo indícios de novo sucesso!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Olivier Theyskens + Lou Doillon


Que a fashionqueratase é presente no DNA da Lou Doillon todos já sabem, afinal, ela é filha de Jane Birkin [além dos gemidos inspiradores em "Je t'aime moi non plus", tem uma legítima Hermès pra dizer que é sua!] e irmã da Charlotte Gainsbourg [cantora, atriz e musa do Balenciaga]. A cantora-atriz-modelo também desenvolve a linha Heritage para a marca de jeanswear Lee Cooper, despretensiosa e rebelde.

Sua parceria com o mundo fashion não para por aí, já fotografou para campanhas da GAP e da Givenchy e tem o posto de musa do Olivier Theyskens. Recentemente, foram juntos ao baile de gala do MET e, em fevereiro, apareceram em um evento da Sidaction [ONG francesa que apóia pesquisas e campanhas de prevenção a AIDS]. Nas duas festas ela usou vestidos vermelhos Nina Ricci por Theyskens.



Mas todos querem saber: se o Olivier for mesmo para a Halston [se depender da Anna Wintour isso é factum!] ela também usará os maxi-vestidos e macacões com ares setentinha? Ou então, se ele assumir a House of Schiaparelli, ela se renderá ao surrealismo luxuoso? Só nos resta esperar...

SAIA JUSTA: Theyskens comenta o baile do MET



“As festas de hoje são ótimas, mas não se comparam com três dias atrás, quando eu sentei na beira do rio Sena e fumei. Meus cigarros são de uma marca chamada La Paz, que é vagabunda, mas é a que eu sempre compro. E, então, fiz xixi no rio. Foi a melhor coisa que eu fiz a semana toda"
Olivier Theyskens
[o estilista, recém demitido da Nina Ricci, falou
suas impressões sobre o baile de gala do MET ao blog da Hintmag]

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tô na mídia!


Uma constelação desfilou, ontem, no tapete vermelho do baile de gala do Metropolitan Musem of Art, que abriu a exposição "a Model as a Muse", no Costume Institute, em homenagem às modelos. Não faltaram tops em looks maravilhosos e estilistas em montações, nem tanto, modernas.

O que mais me chamou atenção não estava nas galerias de fotos deste ano, e sim, em 2006. Uma foto do braço-perna direita da Ana Wintour, o Andre Leon Talley, numa capa/vestido Balenciaga, recém desfilada na primavera de 2006.
Gente, posso confessar: ADOREI! A montação ficou ótima, pena que ele perdeu a mão nos últimos anos e fica parecedo que, por ter uma mídia a seu favor, deve sair vestindo qualquer loucura de grife. Afinal, a deste ano: "Nossa Senhora dos Fashionistas rogai por nós"!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

SAIA JUSTA: cota nas passarelas*



"O criador tem que ter liberdade. Ele é quem deve escolher seu casting e ver o que fica melhor para o resultado final de seu trabalho, mas também tem que existir um equilíbrio"
Thaís Araújo
[afirma a atriz quando questionada pelo site da Erika Palomino sobre a polêmica da semana]



* A declaração [infeliz] de Glória Coelho, no post anterior, me fez ter uma ótima idéia: criar um espaço no blog para opiniões [boas ou más] sobre o que estiver acontecendo no "fantásticoMUNDOdeBOB" em que vivemos! Aproveitem as saias justíssimas que trarei!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Até quando precisaremos de cotas?



Há alguns anos, foi assunto dos principais telejornais brasileiros a decisão do governo de instituir a política de cotas raciais no vestibular das universidades públicas federais e estaduais. O projeto de lei foi justificado como uma compensação aos anos de descaso e negligência para com os negros. Engraçado, como um projeto de cotas compensaria os negros dos maus tratos, do preconceito, da apartheid sofrida, da quebra dos laços de origem, do trabalho escravo que construiu esse país?

Estuda-se a possibilidade de se fazer valer outro projeto, não menos polêmico, que instituiria o sistema de cotas sociais para os estudantes de escolas públicas que queiram ingressar no ensino superior público. Estudantes, em grande maioria, que apresentam em seus registros a declaração de pele negra. Filhos de negros que não tiveram a oportunidade de estudo, por se dedicarem cedo ao trabalho braçal, muitos até freqüentaram as escolas, mas o ensino fraco não possibilitou maiores vôos. Então, vamos ser “bonzinhos”, vamos compensá-los, criar meios para que eles possam ingressar nas faculdades, mesmo sabendo que não os preparamos para isso.

E, então, a compensação é hype, entrou na moda! Tanto se falou dela, nada mais esperado que a sua invasão às catwalks. A promotora Déborah Kelly Affonso, do grupo de atuação especial de inclusão do Ministério Público, preside um inquérito para apurar se a menor presença de modelos negras nas passarelas da SPFW seria uma prática racista e discriminatória. Segundo ela, o percentual de negros no evento chega a 3%, dos 344 modelos apenas 8 eram negros. Estuda-se a possibilidade de se instituir uma cota de modelos afrodescendentes para o evento, como uma mantenedora da equidade social.

Não acredito que seja uma maneira de discriminação racial, mas sim, social! Uma prática condizente com o processo histórico depreciativo vivenciado pelos negros. Privados do direito a educação de qualidade, carentes de políticas que ressaltassem a sua cultura e hábitos de origem africana e colocados à margem sem o direito de adquirir a cultura já miscigenada, expostos a todos os tipos de humilhação, sonhos cerceados!

O sonho de adentrar na passarela de um grande evento, ter todas as atenções para si, mesmo com os olhares voltados para os looks. Ali seria a chance de todos observarem o potencial do negro, tão desqualificado e sempre colocado como uma força produtiva. [Vide o que Glória Coelho falou para a Folha de SP: "A cota pode interferir na obra do estilista. Nosso trabalho é arte, algo que tem de dar emoção para o nosso grupo, para as pessoas que se identificam com a gente. Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, têm negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?"]

A sociedade não valoriza o negro e a moda não seria diferente, ela é um reflexo de tudo que acontece na humanidade. Por anos, modelos brancos dominaram os backstages, as capas de revistas e editoriais, supremacia quebrada por tops como Naomi e Alek, vanguardistas na valorização e incentivo para negros na moda. Muito antes de Michelle Obama ser o novo ícone fashion, ganhar a capa da “Vogue” América e ser uma mecenas de novos estilistas em ascensão.


O casal Obama trouxe o negro à moda. O preto tão adorado pelos fashionistas pode não estar em alta, mas o negro... Não é a toa que a “Vogue” Itália publicou, em 2008, a “Black Issue”, toda dedicada a modelos negras. A eminência da campanha de Barack Obama para presidente dos EUA, um dos países com uma história manchada por forte segregação social e racial, atraiu os olhares para o novo negro, que esbanja elegância, simpatia e inteligência. A publicação teve a capa e editoriais estampados por Iman, Naomi Campbell, Tyra Banks, Ubah Hassan, Jourdan Dunn, Liya Kebede, Alek Wek, Chanel Iman, em fotos de Steven Meisel. Além da entrevista com o cineasta Spike Lee e o perfil de Michelle Obama. Recorde de vendas, a revista alavancou a discussão sobre racismo e a presença de negros na moda.

Depois disso, muitos olhos brilharam, corações palpitaram, desejos surgiram. A negra se sente a vontade para nutrir a vontade de surgir imponente nas passarelas. Seja por meio das cotas ou não. O que um dia foi a realidade nacional cantada por Elza Soares “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, começa a mudar. Não que a o sistema de reparação social seja a melhor solução, mas sim a valorização do negro. Para que outras Emanuelas, Ana Belas, Carmelitas, Rojanes, Samiras e Gracies surjam e conquistem as catwalks internacionais, e quem sabe um dia, sejam homenageadas com uma “Vogue” só delas! Ah, e não como uma compensação, e sim, um reconhecimento!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Liberdade de pensamento!


Você sentaria numa cadeira com esta?

O estúdio de design turco Autoban criou uma cadeira que lembra uma gaiola para pássaros. Intitulada "Ninho", o projeto apresenta o conforto e aconchego dos ninhos com a forma das gaiolas coloniais.

Sem dúvida um objeto-desejo!

Um conto imaginativo da fragilidade humana moderna!


A paixão pelo têxtil e pelas histórias levou a designer dinamarquesa Maria Kirk Mikkelsen a pesquisar sobre o ato de tricotar, o que colaborou na criação de "Pink and powder, puf and pillow". Um imenso travesseiro de tricô rosa, que ela define como "um conto imaginativo da fragilidade humana moderna", em referência a clara relação entre o tricô e a afetividade humana, como também as sensações criadas quando se tricota. Lembrei muito da figura das senhoras tricotando, contando histórias, dando boas gargalhadas. Very nice!

Por onde anda a Amélia?

Muitos homens suspiram ternamente de saudade da Amélia cantada por Mario Lago! A mulher desprendida de vaidade, de luxos, de maiores vontades; submissa e devota ao seu marido. Mas o que fez essa tão desejada esposa partir? A pílula anticoncepcional! Ela não apenas livrou a humanidade de um estrondoso crescimento populacional, como também, libertou a mulher de seus afazeres domésticos, deu asas a novo mundo. Livre, seguro e cheio de sonhos!

Para viver nessa nova realidade a mulher se tornou uma grande heroína, tendo que pensar e agir, ter feminilidade e força, numa relação de amor e ódio com os homens. Os signos do vestir feminino comprovam a necessidade de se autoafirmar, vencer o simulacro criado em torno da Amélia e mostrar ao homem a sua inteligência e sensualidade. Essa é a imagem da mulher desfilada nas passarelas mundo a fora, com a imagem feminina forte e valorizando a cabeça, ombros, punhos e áreas erógenas.

Enganam-se quem pensa que é uma simples retomada dos anos 80 ou de qualquer outro período. A mulher do inverno 2009, que se esforça para sair das passarelas há pelo menos duas estações, é sensual sem ser óbvia e foge do lugar comum ao investir em peças masculinizadas, que tem força nos detalhes.

Cabelos volumosos, cheios de bossa, com grandes adornos, encaracolados ou laquê aparecem em nas passarelas brasileiras e internacionais. A cabeça feminina se torna um foco de atenção, afirmando a mulher que pensa e toma decisões, não só aceita as escolhas dos maridos. [Louis Vuitton, Lanvin, Catherine Malandrino, Prada]

Os ombros são marcados por mangas volumosas e geométricas, numa verdadeira arquitetura do vestir, trazendo à silhueta o poder masculino, a austeridade tão usada nos anos 80 com as imensas ombreiras dos ternos femininos. Estes, também, foram revisitados e ganharam o status de hype da estação quando levemente ajustados ao corpo e com decotes profundos, ou simplesmente sobreposto a camisetas básicas de renda com calças justas, sendo um curinga para qualquer it produção. [Balmain, Stella McCartney, Marc Jacobs, Nina Ricci, Gucci]

Pulseiras para todos os lados! Ícone fashion, Andréa Dellal tem o hábito de adornar o braço com várias pulseiras-crioulas, assim como a anti-amélia, que enfeita o pulso para afirmar a força, como uma armadura. Pulsos reluzentes e emissores de um tilintar capaz de seduzir os homens a léguas distância. Ah, para as mais glamorosas, um bom par de luvas faz surgir uma mulher misteriosa e sedutora. Signos de uma mulher que não se preocupa com as prendas do lar, não precisa lavar louça, passar as roupas, afinal, não dá pra usar várias pulseiras e dar brilho nas panelas né! [Michael Kors, Lanvin, Iódice, Diane von Furstenberg, D&G]

As pernas são alongadas por botas altíssimas, com um perfume fetichista e que levam o olhar para as coxas e zonas erógenas. Botas de cano longo, que abraçam as pernas e delineiam as sinuosidades das mulheres, ora esquecidas por uma silhueta esguia em Y. Equilibram o poder e exalam feminilidade. Depois de tantos vestidos que ora questionavam a cintura, ora marcavam-na, as calças ganham força dentro do figurino da mulher maravilha, sejam saruel, dhoti, carrot pants, skinnys, mas sempre dando o ar da graça em looks rock star ou despojados. [Rodarte, Alexandre Herchcovitch, Hussein Chalayan, Balmain, Uma, Ellus, YSL]

Enfim, onde foi parar a Amélia? Não se sabe. Enquanto ela descansa em berço esplêndido com seus adjetivos, uma nova mulher surge a cada estação, com menos qualidades ou não, mas com algo que certamente a Amélia desconhecia, ESTILO! A “mulher de verdade” é forte, feminina e confiante, e não precisa dizer sim a tudo ou usar vestidos de bolinha para ser dona de casa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Observatório humano

Dando uma fuçada no Youtube, descobri o trabalho do grafiteiro italiano Blu num vídeo bem interessante que mostra o processo de criação em uma parede de Berlim. Sempre com uma crítica bem-humorada ao ser humano, ele pega temas banais, como a escravização do homem pelo tempo ou a tentativa de suicídio por meio da ingestão de tachinhas e transforma em obras de arte acessíveis a todos.

Com um trabalho dedicado e autoral, Blu foi um dos cinco grafiteiros convidados para pintar as paredes do Tate Modern, junto com outros três brasileiros. É de ficar perplexo ao lembrar que uma garota foi presa ao grafitar em São Paulo, no mesmo período em que as pinturas dele e de outros brasileiros ganhavam o status de obra de arte ao serem expostas no Tate, durante uma grande e intensa programação que levou a arte de rua para o museu. Uma arte ligada ao ambiente urbano das grandes cidades, que dialoga com o dia-a-dia de milhares de pessoas de Buenos Aires, Berlim, Zaragoza, que poderia estar numa parede do Rio de Janeiro ou Salvador. São imagens recorrentes, monstros da mitologia grega, o homem e seus questionamentos existenciais, barbáries, todos com um traço próximo ao desenho animado e em proporções gigantescas.

Seu projeto mais recente, o MUTO é um mix de grafite e animação em stop motion, criada a partir de imagens seqüenciadas em paredes de Buenos Aires. Personagens surrealistas são pintados, fotografados e repintados, num trabalho minucioso embalado por uma deliciosa trilha sonora.





É válido conferir e ficar de olho!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O futuro da moda*

A moda tem uma relação dialética com o passado, a cada estação ela nega o que foi usado e propõe tudo novo. Um ciclo de inovação, uma mudança de pensamento, uma evolução dos desejos da sociedade, porém, volta e meia, é no passado que ela se propõe uma reinvenção e traz referências para o futuro.

Mas qual seria o futuro da moda? Como falar em futuro sem analisar o presente? E é no presente que ela acontece! Nos ateliês, indústrias, passarelas, nas ruas; ambientes de convivência, meios sociais que a caracterizam como um fenômeno da sociedade, um reflexo do seu tempo e um diálogo com o contemporâneo.

Sob o ponto de vista da atual conjuntura social, o futuro da moda é repensar o passado para propor um presente mais lúcido, não mais caducar em velhas fórmulas. Repensar o luxo e aproveitar o lixo, ter consciência sócio-ambiental, abandonar o pensamento arcaico de exclusividade, refletir o papel das publicações de moda. E, quem sabe, trazer um novo futurismo, não mais metálico e espacial, mas cor-de-rosa e democrático.


*texto premiado pela SPFW para a Promoção Cultural SPFW - Escola São Paulo.